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Do que o seu corpo ainda lembra? Lições de Peter Levine sobre trauma e memória
Viver Para Vencer – Edição #010
Você já sentiu um aperto no peito, uma tensão no pescoço ou uma angústia que aparece do nada — e que você simplesmente não consegue explicar?
Às vezes, o corpo fala antes mesmo de a mente entender o que está acontecendo. É como se ele lembrasse algo que você já esqueceu. Um cheiro, um som, uma situação qualquer pode disparar uma reação intensa, mesmo que você não saiba exatamente o porquê.
Para o psicólogo e pesquisador Peter Levine, essa sensação tem nome: memória traumática. No livro Trauma e memória – Cérebro e corpo em busca do passado vivo, ele mostra que os traumas que vivemos não ficam apenas guardados nas lembranças: eles ficam registrados no corpo, como se o organismo ainda esperasse a chance de se defender ou escapar de um perigo que já passou.
Mas, se o trauma está no corpo, será que a cura também pode vir daí?
Neste artigo, você vai descobrir cinco ensinamentos essenciais do livro de Peter Levine que vão ajudar a responder a essa pergunta. São ideias simples, mas poderosas, que ajudam a entender por que a dor emocional às vezes aparece sem aviso. E o que podemos fazer com isso.
O trauma nem sempre deixa lembranças, mas deixa marcas

Quando pensamos em trauma, quase sempre imaginamos algo como uma cena de filme — um acidente, uma perda dolorosa, um momento que ficou gravado na memória com todos os detalhes. Mas a verdade é que muitos traumas não deixam lembranças claras. E, mesmo assim, continuam agindo dentro de nós.
Peter Levine explica que o trauma não é definido apenas pelo que aconteceu, mas por como o nosso corpo reagiu ao que aconteceu — e, principalmente, pelo que ele não conseguiu fazer na hora. Às vezes, não conseguimos lutar, fugir ou pedir ajuda. Ficamos congelados. E essa energia travada fica ali, guardada, como uma cicatriz invisível.
Essa é uma das ideias centrais do livro: você pode não se lembrar do trauma, mas seu corpo lembra.
Talvez você nunca tenha conseguido explicar por que certos lugares lhe causam mal-estar, ou por que certas vozes deixam você desconfortável. Talvez ache estranho que, diante de situações simples, como uma conversa com o chefe ou um barulho no trânsito, você reaja com medo, raiva ou paralisia. Isso não é loucura. São marcas que o trauma deixou no corpo – e não necessariamente na memória.
Essas reações podem parecer exageradas para quem está de fora. Mas, por dentro, o corpo está exercendo uma função de proteção. Ele aprendeu, em algum momento, que aquilo era perigoso, e agora age por impulso, mesmo que o perigo já tenha passado.
Entender isso é libertador. Significa que você não está fraco, nem quebrado. Está apenas reagindo com os recursos que o corpo conhece. E a boa notícia: com o tempo e com os cuidados certos, esses padrões podem ser transformados.
O corpo se lembra do que a mente esqueceu

Você já ouviu a expressão “memória corporal”? Ela pode soar estranha, mas faz muito sentido quando falamos de trauma.
No livro, Peter Levine explica que nem toda memória está ligada a fatos que conseguimos contar com palavras. Existem memórias que moram no corpo, gravadas em forma de sensações, reações físicas e reflexos involuntários. São as chamadas memórias implícitas.
É por isso que, às vezes, uma pessoa pode viver uma situação que parece pequena — como receber uma crítica ou ouvir uma discussão — e ter uma reação intensa: o coração dispara, os músculos se enrijecem, a respiração trava. A mente não entende, mas o corpo se lembra de algo parecido que foi doloroso ou assustador no passado.
Essas memórias implícitas são como alarmes internos. O corpo não precisa esperar a mente “raciocinar” para reagir. Ele já aciona o modo de defesa, tentando proteger você de um risco que nem sempre é real — mas que, para ele, parece muito familiar.
E aqui está um ponto importante: isso não acontece só com quem viveu grandes traumas. Pode acontecer com qualquer pessoa que passou por situações que o corpo interpretou como perigosas e que, por algum motivo, não pôde processar ou superar na época.
Levine destaca que ouvir o corpo é uma forma de acessar essas memórias silenciosas. Muitas vezes, a cura não vem ao tentar “lembrar” com clareza do que aconteceu, mas ao sentir com atenção o que o corpo está querendo dizer agora — e oferecer a ele segurança para relaxar.
Não é mágica: é biologia. E, acima de tudo, um caminho de reconexão com você mesmo.
A armadilha das falsas memórias

Quando alguém sofre com sintomas de ansiedade, pânico ou reações inesperadas, é comum tentar buscar uma explicação: “Será que isso aconteceu por causa de algo que vivi na infância?”, “Será que bloqueei alguma lembrança traumática?”. Essas perguntas são legítimas — mas, segundo Peter Levine, elas também podem ser perigosas se forem malconduzidas.
No livro, ele alerta sobre um problema sério: o risco de criar falsas memórias. Quando uma pessoa está fragilizada emocionalmente e, em vez de ouvir o próprio corpo, tenta forçar lembranças com a ajuda de suposições, sugestionamentos ou interpretações externas, pode acabar “lembrando” de algo que na verdade nunca aconteceu exatamente daquela forma.
Isso não quer dizer que a dor seja falsa. A dor é real. O sofrimento é real. Mas a história que a mente constrói a partir de sensações confusas pode não ser fiel aos fatos. E, quando isso acontece, a pessoa pode se afastar ainda mais da cura — carregando o peso de uma narrativa que, em vez de libertar, aprisiona.
Levine defende que o foco da terapia do trauma não deve ser forçar lembranças antigas, mas sim acolher o que aparece no corpo, no presente: tremores, contrações, calafrios, ondas de calor, movimentos involuntários. São esses sinais que mostram o que ainda precisa ser processado.
Ele também mostra que muitas terapias tradicionais, mesmo bem-intencionadas, podem acabar reforçando essa armadilha. Por isso, propõe uma abordagem mais gentil, que respeita o tempo do corpo e não exige que a pessoa “reviva” o trauma para se curar.
A chave, segundo Levine, é mudar o foco. Em vez de perguntar: “O que aconteceu comigo?”, indague: “O que o meu corpo está me mostrando agora?”.
A segurança é o caminho para a cura

Uma das ideias mais transformadoras do livro de Peter Levine é esta: o corpo só começa a se curar quando se sente seguro.
Isso pode parecer simples, mas muda tudo.
Se o trauma deixa o corpo em estado de alerta, como se o perigo ainda estivesse presente, não adianta forçar mudanças ou tentar "superar" o sofrimento com pressa. O corpo precisa voltar a confiar no ambiente — e em você mesmo.
Levine explica que a sensação de segurança é o primeiro passo para que o sistema nervoso relaxe e permita que as memórias traumáticas sejam processadas de forma saudável. Sem isso, a pessoa continua presa no ciclo de tensão, medo e reatividade.
Por isso, a cura não começa com grandes revelações, mas com gestos pequenos:
Respirar fundo e perceber que está tudo bem agora;
Estar perto de pessoas que não julgam, que acolhem;
Criar pausas ao longo do dia para se reconectar com o corpo;
Prestar atenção aos próprios limites — e respeitá-los.
Levine defende que o trauma não se resolve na força: ele se desfaz na presença, no cuidado e na atenção ao momento presente.
Em uma terapia baseada na Experiência Somática, por exemplo, o terapeuta ajuda a pessoa a perceber os sinais do corpo sem se assustar com eles. A ideia é criar um espaço onde o sistema nervoso possa, aos poucos, “baixar a guarda” — e aí sim permitir que o trauma se dissolva.
É como se o corpo dissesse: “Agora, sim, estou pronto para soltar o que ficou preso”.
E essa sensação de segurança não precisa vir apenas do consultório. Você também pode cultivá-la aos poucos na sua rotina: um toque suave no próprio braço, um suspiro consciente, um momento de silêncio — tudo isso pode ser o início de uma nova relação com seu corpo e com a sua história.
O trauma quer se completar, não se repetir

Você já teve a sensação de estar revivendo sempre a mesma situação emocional? Como se, por mais que o cenário mude, a dor seja sempre a mesma?
Peter Levine mostra que isso acontece porque o trauma, na verdade, não quer ser lembrado — ele quer ser completado.
Explicando melhor: quando passamos por uma situação extrema e o corpo não consegue reagir da forma que gostaria (lutar, fugir, pedir ajuda), essa energia fica presa dentro de nós. É como se algo tivesse ficado interrompido.
E, até que essa resposta seja concluída, o corpo continua tentando resolver o que não conseguiu lá atrás — mesmo que de forma inconsciente.
É por isso que, em situações que lembram minimamente o trauma original, as reações vêm com força. Não é drama, não é exagero. É o corpo dizendo: “Agora vai!” — e tentando terminar aquilo que começou anos atrás.
A boa notícia é que essa “completação” pode acontecer. E ela não depende de lembrar do trauma com clareza, nem de reviver o sofrimento. Muitas vezes, basta permitir que o corpo se expresse — com tremores, suspiros, movimentos espontâneos, ou até com um simples choro, que finalmente vem.
Em uma sessão terapêutica, isso pode acontecer de forma sutil. O paciente sente uma leve contração e, depois, uma sensação de alívio. É o corpo se autorregulando, soltando o que estava preso.
Levine diz que a cura não é um processo intelectual. É um processo biológico, instintivo e natural — desde que a gente não tente controlar tudo com a cabeça.
Quando damos espaço para que o corpo complete esse ciclo, ele para de repetir o trauma. E começa, enfim, a se libertar dele.
E agora?
Depois de tudo isso, talvez a grande pergunta seja: o que fazer com essas informações?
Saber que o trauma pode estar no corpo, e não apenas na memória, muda a forma como nos enxergamos. Aquela ansiedade sem explicação, aquele medo que parece exagerado, aquela tensão que volta sempre – nada disso é “frescura” ou “fraqueza”: são sinais legítimos de que algo dentro de você ainda está tentando se resolver.
Mesmo sem entender tudo isso com clareza, é possível sair do ciclo vicioso. E você não precisa fazer isso sozinho. Buscar ajuda profissional pode fazer a diferença. Mas também há coisas que você pode começar a fazer por conta própria:
Aprender a ouvir o que o corpo está sentindo, sem julgamento;
Criar momentos de pausa, respiração e presença;
Se tratar com mais gentileza e menos cobrança;
Se permitir sentir — mesmo quando não entende exatamente o porquê.
Peter Levine nos mostra que o corpo não está contra nós. Pelo contrário: ele está tentando nos proteger, do jeito que aprendeu. E, quando damos a ele segurança, escuta e tempo, ele também aprende a se libertar.
Trauma não é destino. E nem precisa ser uma prisão eterna. É só um ciclo que ficou incompleto — e que, com cuidado e presença, pode finalmente se encerrar.
Se o corpo guarda a dor, ele também guarda a chave da cura.
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