Sobre desistir: quando abrir mão também é um caminho

Viver Para Vencer – Edição #020

Vivemos cercados de frases de efeito que repetem sempre a mesma lição: “nunca desista”, “só os fracos abandonam”, “quem persiste, vence”. Crescemos ouvindo que desistir é sinônimo de fracasso.

Mas será mesmo? Será que insistir em algo que não faz sentido é sempre sinal de força?

O psicanalista britânico Adam Phillips, em seu livro Sobre desistir, propõe um olhar diferente. Ele nos mostra que desistir não precisa ser encarado como derrota, mas pode ser também um gesto de liberdade, um espaço para abrir caminho ao novo.

O livro nos convida a repensar a desistência: não como o fim de tudo, mas como parte natural da vida, algo que fazemos o tempo todo, mesmo sem perceber.

Neste artigo, vamos explorar essa ideia. Vamos falar sobre o peso cultural do “nunca desistir”, entender o que significa realmente abrir mão, olhar para o medo de falhar, perceber quando desistir é também cuidar de si e, por fim, enxergar a vida como uma série de pequenas renúncias que nos permitem seguir em frente.

1O peso cultural do “não desistir nunca”

Desde cedo somos ensinados a persistir a qualquer custo. Filmes, palestras motivacionais e até slogans esportivos reforçam a ideia de que “os fortes nunca desistem”.

Essa visão molda nossa relação com o sucesso: insistir se torna sinônimo de virtude, enquanto desistir soa como fraqueza.

Mas, como lembra Adam Phillips, essa lógica é limitada. Nem toda insistência é positiva. Muitas vezes, persistir é apenas uma forma de teimosia ou até de autoengano.

Continuamos em um emprego que nos desgasta, porque achamos que sair seria uma derrota. Mantemos relacionamentos que já não trazem alegria, apenas porque acreditamos que abandonar seria fracassar.

A sociedade coloca medalhas na persistência, mas raramente discute o preço dela. O custo emocional, físico e até criativo de não soltar aquilo que já não nos serve.

2 – O que significa desistir, de verdade

Quando falamos em desistir, logo pensamos em abandonar, largar, perder. Mas Phillips amplia esse sentido: desistir também é interromper, renunciar, abrir espaço. É deixar de investir energia em algo para poder investir em outra coisa.

Em vez de derrota, pode ser reorientação. Quando alguém decide mudar de carreira porque descobriu que sua profissão não faz mais sentido, não é apenas desistir de um caminho, mas escolher outro mais alinhado ao que deseja.

Isso acontece também em situações pequenas do dia a dia. Desistir de discutir uma bobagem pode ser preservar a paz. Desistir de um plano que não se encaixa mais pode ser dar lugar a novas possibilidades.

Cada vez que abrimos mão de algo, abrimos também espaço para o novo. A desistência, então, não é um buraco vazio, mas um campo fértil.

3 – Desistir e o medo do fracasso

Ainda assim, é difícil se libertar da ideia de que desistir é falhar. Parte disso vem do medo: medo de decepcionar, de parecer fraco, de dar a impressão de que não fomos capazes.

Phillips nos lembra de algo essencial: desistir e fracassar não são a mesma coisa. Muitas vezes, parar é justamente o oposto do fracasso — é perceber, a tempo, que continuar custaria mais caro.

Pense em alguém que está em uma disputa desgastante no trabalho, em busca de uma promoção. O esforço é enorme, mas o ambiente é tóxico e a ansiedade cresce. Desistir dessa corrida pode parecer, à primeira vista, uma derrota. Mas, na prática, pode significar escolher um caminho mais saudável, onde exista espaço para crescer de verdade.

A diferença está na intenção. Desistir por medo pode nos paralisar; desistir por lucidez pode nos libertar. O desafio está em reconhecer qual é o caso.

4 – Quando desistir é também se cuidar

Na cultura do desempenho, ouvimos sempre que devemos ir além dos nossos limites. Só que ultrapassar o limite o tempo todo tem um preço alto. Persistir em algo que nos adoece não é sinal de força, é sinal de descuido.

Aqui, a desistência surge como um ato de cuidado. Desistir pode ser proteger-se. Pode ser respeitar seu corpo, sua mente e seu tempo.

Uma pessoa que decide sair de um emprego tóxico sabe que será julgada. Alguém pode dizer: “você devia aguentar mais um pouco”. Mas a coragem, nesse caso, está justamente em não aguentar. Está em recusar o que machuca e buscar algo que faça sentido.

Quando desistimos de algo que nos faz mal, estamos escolhendo viver melhor. É um gesto de respeito por si mesmo.

5 – A vida como uma série de desistências

A verdade é que desistir faz parte da vida. Desde a infância, vamos deixando coisas para trás. Desistimos de brinquedos para ganhar novos interesses. Desistimos de sonhos antigos porque outros aparecem. Desistimos de ser quem éramos para poder nos tornar quem somos hoje.

Phillips lembra que cada fase da vida é feita de pequenas desistências inevitáveis. E, longe de serem tragédias, elas são necessárias para que possamos mudar, crescer e experimentar novas formas de viver.

Olhar para a vida dessa maneira muda nossa relação com o abandono. Em vez de pensar “estou fracassando”, podemos pensar “estou abrindo espaço para algo diferente”.

A desistência, assim, não é exceção — é parte do processo de estar vivo.

E agora?

Se desistir é algo inevitável e até necessário, como podemos lidar melhor com isso no dia a dia?

O primeiro passo é mudar a pergunta. Em vez de pensar apenas “devo desistir?”, vale se perguntar: “o que ainda faz sentido para mim?” e “do que abrir mão pode me aproximar de uma vida melhor?”.

Também é importante diferenciar desistência por medo de desistência por clareza. O medo paralisa, mas a clareza liberta. Reconhecer essa diferença exige honestidade consigo mesmo.

Outra reflexão: desistir nunca é apenas largar algo, mas sempre abrir espaço para outra coisa. É deixar de investir energia em um caminho para poder investir em outro.

Portanto, da próxima vez que sentir culpa por pensar em desistir, lembre-se: talvez não seja o fim de um sonho, mas o começo de outro.

Desistir pode ser, afinal, o primeiro passo para uma vida mais autêntica, menos pesada e mais sua.

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Um abraço e até o nosso próximo encontro.

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